Guilherme
Guilherme
“Kazuo Ohno e o Butô: teatro-dança de um corpo entregue aos impulsos da alma
Kazuo Ohno, um dos mais aclamados dançarinos japoneses de todos os tempos, é um dos responsáveis pela instauração de um novo panorama no teatro ocidental: o teatro-dança.
Nascido em 27 de outubro de 1906, em Hakodate, no Japão, cursou Educação Física na Escola Atlética do Japão e estreou como dançarino somente aos 43 anos, em Tóquio. A partir dos anos 80 passou a viajar por diversos países apresentando seus mais belos espetáculos de teatro-dança, entre eles Admirando La Argentina, um solo de noventa minutos em homenagem a bailarina espanhola Antonia Mercê, conhecida como La Argentina.
O Butô, criado por ele num processo de colaboração intensa com Tatsumi Hijikata, nasceu na virada da década de 50 para 60, no Japão do pós-guerra fragmentado pela derrota e tomado pela consciência de que a verdadeira arte era a desenvolvida no ocidente. A dança é não só uma grande ruptura com as formas tradicionais de teatro e dança japoneses, como também uma negação contundente da influência da cultura ocidental, principalmente da americana, que na época era considerada “vitoriosa”.
“Bu” significa dança, e “toh”, passo. Butô combina dança e teatro, em espetáculos centrados em temas como o nascimento, a sexualidade, o inconsciente, a morte, o grotesco. O corpo é esvaziado de referências culturais e se entrega a todo tipo de metamorfose.
Segundo Antunes Filho, o Butô vem da morte. Ele jamais existiria se não fosse a bomba atômica. É uma espécie de manifestação escatológica. E se Hijikata revela a escatologia de maneira yang terrível, masculina Kazuo Ohno nos oferece esse mesmo universo de maneira yin maternal, pleno de amor e esperança. Ele trabalha com o corpo morto, murcho, com o qual seguem os impulsos e instintos da alma. Permite, portanto, que a memória chegue sem produzir esteriótipos, clichês que vêm da parte emocional, e não dos arquétipos da mente.
Desde os primeiros trabalhos de Tatsumi Hijitaka (1928-86) e Kazuo Ohno (1906), o butô tem crescido e se desenvolvido muito. Não é raro nos dias de hoje ouvir críticas à internacionalização do butô, que teria levado à perda de sua verdadeira natureza. Mas alguns princípios são comuns a todos, como a exploração de um subconsciente do corpo e a dramatização de formas que emergem do processo natural de nascimento e envelhecimento.
Abaixo, segue um trecho da entrevista de Lúcia Nagib com Kazuo Ohno, para a Folha de São Paulo, em 1991:
L.N. Sua personalidade de artista começou a se desenvolver na idade madura. Gostaria que o senhor contasse um pouco como a dança e o butô entraram em sua vida.
K.O Não sei bem a idade em que comecei, mas naquela época imperava a dança moderna. Eu, porém, achava que devia trazer os elementos da vida cotidiana para a dança, conhecer perfeitamente cada um dos nossos pequenos gestos corriqueiros, para traduzir a influência que o ser humano tem no universo. Era preciso conhecer e interpretar a responsabilidade do ser humano dentro do universo. Meu interesse se localiza sobretudo na relação vida e morte. Embora a morte seja em parte incompreensível, não conseguiríamos entender a vida sem a morte. Minha dança não seria concebível sem essa relação. E quanto mais velhos ficamos, mais nos aproximamos da morte daí talvez o aparecimento tardio da dança em minha vida. Segundo creio, vivemos todo dia um pouco de vida e morte. A mãe, quando dá a luz a uma criança, também se aproxima da morte. A criança, no útero materno, alimenta-se da vida da mãe, consome um pouco de sua vida. A própria posição circular do feto no útero da mãe indica o contato entre a vida e a morte, e se e o shi. Todos nós estamos sobre influência constante do shi, o princípio da morte. Todo o nosso vigor é extraído do shi.
L.N. A origem do butô está ligada ao movimento de libertação dos anos 60. No entanto, parece ter também laços estreitos com outras artes tradicionais japonesas, como o Kabuki, o No, o Bunrako.
K.O O que se relaciona mais estritamente com o butô é o bunrako, que lida com bonecos de madeira, portanto com um corpo morto, sobre o qual se veste uma roupa que lhe dá vida. Essa roupa é o universo. O corpo é estático, é a roupa que lhe dá o sopro de vida.”
por Ana Paula Cassettari
Fonte: http://www.opalco.com.br
Percebi que as fotos e os vídeos postados não saíram nessa repostagem.
Então, reposto os vídeos do Hijikata aqui em separado, e peço pro André (acho que foi ele) reposte a foto do Saga de Galatéia.
Abraços