Arquivo para a Dias Gomes categoria
Nova verção para o Cinema do Bem Amado
Postado em Dias Gomes, Dica de Cinema, Personagens Tipos em 27 de agosto de 2010 por sagradocaceteO Berço do Herói
Postado em Dias Gomes em 5 de outubro de 2009 por sagradocaceteO Berço do Herói
O Primeiro Ato começa nos apresentando a praça principal do município baiano de Cabo Jorge. A pequena cidade é chamada assim em homenagem a um herói de mesmo nome que nasceu ali, e que é muito aclamado pela população. Ele participou da Segunda Guerra Mundial e morreu heroicamente em combate, na Itália, lutando contra os alemães.
Quando sabem de sua morte em sua cidade natal, resolvem honrá-lo, mudando o nome da cidade e erigindo uma estátua do herói na praça central do vilarejo. Em pouco tempo, a história da morte de Cabo Jorge vai tomando proporções de lenda, sendo o soldado considerado quase como que um santo pelos habitantes da cidadezinha.
Esse aspecto de santidade da figura de soldado é aproveitado pelos líderes da pequena comunidade: o Major Manga, representante do Poder Legislativo, o Prefeito, representante do Poder Executivo e o Vigário, representante da Igreja Católica, Matilde, a dona do prostíbulo e, finalmente, Antonieta, alegada viúva do soldado da época em que ele vivia em Salvador, antes da Guerra, numa república de estudantes universitários.
Todos eles lucram, cada um a sua maneira, com a divinização e culto ao herói, pois visitantes, romeiros e peregrinos são atraídos até Cabo Jorge, fazendo com que a economia do local, que antes da Guerra era uma área desolada, se alavanque e prospere, passando a ser um oásis de civilização no meio do agreste baiano.
No entanto, esses figurões da pequena comunidade tem entre si suas disputas sociais e ideológicas. O Vigário, por exemplo, está em constante conflito contra as prostitutas da cidade encabeçadas por Matilde, a cafetina local. Ele quer, junto com o apoio das beatas, que a casa de tolerância de Matilde seja fechada e interditada pelo Prefeito e pelo Major Manga. Apesar de sempre acusar o progresso da cidade de ser a causa da vinda da tentação do Demônio até aquela terra de Deus, o Vigário nunca nega, da parte de Antonieta e do Major Manga, donativos para a construção do teto da Igreja vindos dos lucros decorrentes do intenso e crescente comércio de Cabo Jorge, mesmo que seja dinheiro recolhido da prostituição. Já Matilde, em contrapartida, deseja o apoio de Antonieta e do Major para que seja construída uma segunda casa de tolerância na cidadezinha, que cresce cada vez mais e precisa dessa nova facilidade. Antonieta faz um jogo duplo, tentando agradar tanto a cafetina (pois esta lhe repassa muitas somas em dinheiro para a Igreja) como o Vigário, que é o líder espiritual da cidade.
Há também o conflito entre Lilinha, a filha do Prefeito, e Antonieta. Lilinha foi a primeira noiva do Cabo, antes de este ir estudar em Salvador. Ela nunca compreendeu ou tampouco se conformou em ter sido trocada por Antonieta no coração do herói. Outra figura invejada é o Major, o chefe político do município, por ser seu representante enquanto Deputado Federal. Muita gente critica os arbítrios do Major, que tira proveito de sua posição como cacique político da cidadezinha. Conseguiu aprovart, no congresso, a construção de uma estrada de Cabo Jorge a Salvador, cujo trajeto, no entanto, dá uma volta desnecessária que passa, inexplicavelmente, pela fazenda do cacique político.
E, por fim, certos rumores que comentam sobre a proximidade entre Antonieta e o Major. Muitos suspeitam, e acertadamente, que há um caso extraconjugal entre a viúva de Cabo Jorge e o fazendeiro. O Major é casado e, além disso, para as pessoas da comunidade, é como se Antonieta fosse alguma espécie de Virgem Maria, por ter ligação familiar com um “santo”.
Em resumo, a cidade é um barril de pólvora com o potencial de explodir a qualquer momento, e seus habitantes mais proeminentes sabem muito bem disso.
E esse barril explode, mas de uma maneira completamente inusitada e inesperada: através de um forasteiro que chega à cidade. Primeiro ele fica deslumbrado com a estátua de Cabo Jorge no meio da praça, tentando imaginar a quem ela esteja homenageando. Em seguida, ele aborda a cafetina Matilde na rua, que se encanta muito com ele, e pergunta a ela como pode ser encaminhado à casa de Major Manga, pois acaba de chegar a cidade e quer se estabelecer. Matilde lhe recomenda falar com a viúva Antonieta (só não especifica viúva de quem), e diz ao rapaz que ela é muito próxima ao Major, a melhor pessoa para encaminhá-lo. Quando o rapaz entra na casa, e é apresentado a Antonieta por sua empregada, os dois levam um susto ao se reconhecerem, e então descobrimos que o rapaz desconhecido é, na verdade, o próprio Cabo Jorge, voltando a sua terra natal, depois de dez anos correndo o mundo. Ao perceber que Jorge não faz a mínima idéia de que é considerado um herói na pequena cidade, assim como de nada mais da atual condição de “santuário” da cidade por causa justamente dele, Antonieta resolve jogar verde para colher maduro, ou seja, omitir o máximo de informações possíveis sobre os últimos dez anos ao ex-combatente. Ficamos sabendo nessa conversa entre os dois que Antonieta nunca fora casada com Jorge. Ela simplesmente deitava com ele, assim como com todos os outros rapazes da pensão onde Jorge morava, quando estudante em Salvador, e onde ela trabalhava como simples camareira. Fica no ar a dúvida de como Antonieta chegou a cidadezinha com o status de viúva do Cabo Jorge, mas fica implícito que não foi por acaso.
Nas falas e silêncios da “viúva”, podemos perceber que ela se apercebe ao longo do diálogo a calamidade que representa a “ressurreição” do Cabo Jorge. Se toda a cidade souber que Cabo Jorge na verdade não morreu, o mito através do qual a cidade conheceu seu imenso e recente progresso escoaria pelo ralo.
A trama se enreda ainda mais quando Jorge e Antonieta resolvem matar a saudade dos tempos de amantes na cama da “viúva”. Aqui, no entanto, conjetura-se acerca do caráter de extrema ambigüidade das ações e atitudes de Antonieta. Seria só por puro prazer que ela chama Jorge para sua cama? Não seria também porque essa era uma maneira de segurá-lo em sua casa sem que chame atenção saindo na rua?
No dia seguinte, o Major Manga vai até a casa de Antonieta e fica sabendo por ela da “ressurreição” de Cabo Jorge. Primeiro, ele fica com ciúmes, achando e com razão que ele e Antonieta estão tendo um caso. Então, ela dissimula e diz ao fazendeiro que só o manteve na sua casa porque era imperativo que ele não saísse na rua, pois assim seria reconhecido, sendo o prenúncio da destruição da cidade, e de todos eles. Novamente a dubiedade de Antonieta: ela pensa mesmo assim, ou foi só a desculpa que achou para amansar o Major? De uma maneira ou outra, Major Manga se apercebe do iminente perigo que representa a volta daquele homem à cidade e decide por pactuar com a estratégia da viúva.
Estratégia essa que, no entanto, acaba não dando certo, pois já no dia seguinte ao de sua chegada, Jorge sai para a rua e se encontra com o Vigário, o Padre Lopes, que por sorte não o reconhece. Quando sabe por sua pitoresca criada surda-muda que Jorge saiu para a rua, Antonieta tem um sobressalto preocupado. Quando este volta, ela resolve contar para ele parte do que tem se passado em Cabo Jorge, desde que ele foi para a Guerra. Ela conta a ele que, para seu grande espanto, o consideram um herói morto em combate. Que a cidade foi rebatizada com o seu nome e a estátua na praça é em sua homenagem. Apesar de chocado com as informações que Antonieta lhe apresenta, Jorge não parece estar muito preocupado com as conseqüências de sua volta na sua cidade natal e xará. Na verdade, Jorge demonstra ser um verdadeiro covarde, cínico e desprovido de qualquer senso de patriotismo ou moralidade. Faz um discurso verdadeiramente hilário para Antonieta, em que fala que está “vivo, graças a sua inteligência e a uma qualidade fundamental de todo ser humano, o cagaço!”, que “nisso está o seu grande mérito, e sua valentia, pois é preciso coragem, muita coragem pra sentir um medo tão grande” e por isso, ele merece…dezenas, centenas de estátuas, pois no mundo de hoje, só os encagaçados podem salvar a humanidade”. Apesar de saídas da boca de um covarde, fica decididamente sugerido que, com essas palavras, o autor da peça Dias Gomes quer nos propor com ela uma crítica à guerra, e uma releitura do conceito de patriotismo, que poderia, muitas vezes, ser um instrumento ideológico para a formação de massas de manobra.
Jorge e Antonieta estão rindo depois do galhofeiro discurso de Jorge, no que surge o Major Manga, vindo para ter com o ex-cabo. A situação fica tensa, pois Jorge ainda não entende que tanto o Major como Antonieta querem que ele suma e não volta mais ali, pois sua volta significaria a ruína do município de Cabo Jorge. O ex-combatente e o Major discutem muito, com esse acusando aquele de ser um covarde e indigno das honras que recaem sobre ele, enquanto que aquele esbaja cinismo, contra-argumentando o moralismo de ceroulas do chefe político da cidadezinha, porque Jorge não é bobo e sabe que o Major se aproveita política e economicamente do fato de ser líder de uma cidade tão importante como Cabo Jorge se tornou e que, portanto, o moralismo do Major nada mais é medo de que, com sua volta, o Major perca tudo que tem.
Para piorar ainda mais a situação, depois que Jorge vai embora, o Vigário Lopes aparece na casa de Antonieta, dizendo que, depois de um tempo, finalmente reconhecera Jorge do encontro na praça. Major e Antonieta preferem não desmentir, e fazer o religioso de cúmplice, do que deixá-lo espalhar boatos pela cidade. O Vigário diz, entretanto, que ele já comentara com o Prefeito. Major Manga e Antonieta, receosos, percebem que é muito difícil segurar um segredo. Reunidos os quatro, o fazendeiro convence-os de que é preciso evitar que a boataria se espalhe, e também, de que é imperativo que o ex-cabo volte para a Itália, para que não seja a ruína de Cabo Jorge. Então, se reúnem com o rapaz e lhe propõem de voltar para a Europa o mais breve possível, oferecendo-lhe até dinheiro, se for o necessário. Este se recusa firmemente, ocasionando um impasse e conquistando a inimizade do Major. Este último sai da reunião ameaçando Jorge e dizendo-lhe que vai tomar medidas mais drásticas.
O Segundo Ato começa com a cidade sendo enfeitada para receber Jorge. Segundo se aprende, Antonieta, o Padre e o Prefeito, sem a participação do Major, que está no Rio de Janeiro, resolvem espalhar a notícia de que Cabo Jorge vai voltar. De que na época da Guerra, ele foi apenas ferido, mas que o choque foi tão grande que ele perdeu a memória por dez anos, por isso reaparecer só agora. Assim, não só se preserva como ainda se fortalece o mito do herói e também do “santo”, para o deleite do beatíssimo Vigário, que vê nessa volta uma espécie de “retorno do Messias”, que irá trazer a salvação da cidade, devassada pela prostituição da cafetina Matilde.
No entanto, essa brilhante solução (pensada, obviamente, pela espertíssima Antonieta) vai por água abaixo quando o Major Manga retorna do Rio no trem da cidade. Cumprindo a promessa de “tomar medidas mais drásticas”, Manga traz com ele do Rio um General, que veio pessoalmente retaliar Jorge por sua falta de bravura e deserção, sem mencionar a desonra ao exército brasileiro, quando descobrirem a farsa. Em conferência com Antonieta, o Prefeito, o Vigário e o Major, o General inicialmente pensa em prender Jorge por deserção de guerra, mas então percebe que isso dá no mesmo, o exército seria motivo de chacota igual. Concorda, então, que Jorge volte para a Itália discretamente, sem que ninguém no país nunca saiba do ocorrido.
Ao mesmo tempo em que ocorre esse encontro, Lilinha visita Jorge na casa de Antonieta. O Prefeito, que é o pai de Lilinha, já tinha lhe deixado vasar a informação de que Jorge já estava na cidade, na casa de sua “viúva”, então esta resolve ir até lá para ter um confronto direto com o ex-cabo. Lilinha é rancorosa em relação a Jorge por este, em sua imagem, ter traído o seu noivado ao casar-se com Antonieta. Quando eles conversam em casa de Antonieta, Jorge percebe o descontentamento da antiga noiva, mas pensa que é pelo mesmo motivo que todos os outros o acusam e culpam – a covardia de ter desertado, pois ele não sabe que Antonieta, na verdade, se promoveu na cidade às custas de ser a sua falsa viúva. Só no fim do diálogo é que Lilinha, já saindo da casa de Antonieta, faz entender a Jorge de que ele é o “falecido” de Antonieta. No mesmo instante, Antonieta retorna a sua casa da conferência com o General. Jorge a bota contra a parede e lhe exige toda a verdade em relação a seu casamento. Antonieta lhe conta de que foi idéia do Major, que quando se recebeu a carta de “morte em ação” na república de estudantes, ela é que foi a encarregada de levar a carta até o escritório do representante da cidade em Salvador, o então Deputado Estadual Major Manga. Em parte porque queria uma viúva para incrementar a lenda do herói, em parte porque secretamente desejava Antonieta para si, o Major com a sua influência forjou documentos comprovando a união conjugal dos dois e, portanto, a viuvez de Antonieta.
Jorge percebe que há um elo bizarro entre Antonieta, o Major e ele (ou melhor, o mito construído a partir dele) e percebe, finalmente, o quão perigosa é a sua estada no seu município xará. A conselho de Antonieta, ele foge para a casa da sua já conhecida cafetina Matilde. O que é inútil, no entanto, pois o Major entende que Antonieta está protegendo o ex-cabo e a força a dizer de seu paradeiro.
Na penúltima cena, Jorge é enquadrado no prostíbulo pelo Major, pelo Prefeito e pelo General. O General coloca Jorge em uma saia justa, expondo sua culpa. Pela primeira vez, Jorge se sente sensibilizado, mas diz que é impossível ele voltar para a Itália, pois, ao desertar do exército brasileiro, ele matou um camponês na estrada, para roubar-lhe a roupa e poder passar desapercebido pelas autoridades militares. Foi, no entanto, identificado pela mulher do camponês, que estava junto e que Jorge pensava ter matado, mas que foi só ferida, e, portanto, Jorge passou a ser proscrito na Itália como criminoso. A volta ao Brasil, foi motivada por isso, aliás, e não por saudades da terra, como ele inicialmente alegava.
Esse, a meu ver, é um dos pontos máximos da peça, pois aqui Dias Gomes parece estar zombando de todos ao mostrar que ninguém, absolutamente nenhum personagem da peça tem qualquer valor moral que seja. Fica parecendo que, para Dias Gomes, Cabo Jorge não é anti-belicista ou libertário coisíssima nenhuma, e não passa de um assassino covarde, ordinário e miserável.
Então, o General sugere que na verdade, nem era para Jorge estar vivo, pois afinal, oficialmente ele já é um homem morto. Ao saírem da sala as três autoridades que vieram “julgar” Jorge mais a cafetina enquanto dona da casa, Jorge permanece na sala, junto com as prostitutas, apreensivo quanto ao veredicto que vai se chegar em relação a ele.
Misteriosamente, o imbróglio conclui com os três homens deixando Jorge livre, com as prostitutas, dizendo que está tudo resolvido, e que o ex-combatente não se preocupasse mais. Jorge fica com uma pulga atrás da orelha, mas aceita mesmo assim um coco com bebida alcoólica dentro. Depois de beber tudo de uma sentada só, Jorge cai desmaiado por causa do forte sonífero colocado na bebida. Matilde e as duas prostitutas colocam Jorge em uma cama, onde elas vão mais tarde decidir o que fazer com ele. Fica claro que o Major pediu que elas resolvessem o problema com Jorge em troca do benefício de elas poderem construir o sonhado segundo prostíbulo.
Súbito, um ataque de beatas lideradas pelo Vigário Lopes irrompe contra o prostíbulo, apedrejando as janelas da casa. Nisso, Matilde tem a idéia de pegar um dos pedaços de vidro e degolar Jorge (isso fica somente implícito no texto) para que pareça que a culpa foi das beatas, ao quebrar uma das janelas.
Na última cena do segundo ato, Antonieta, Lilinha, Matilde, o Major, o Prefeito, as prostitutas de Matilde e o Vigário velam o corpo de Jorge, um atirando a culpa da morte do rapaz ao outro, que, por sua vez, se exime da culpa e repassa ao próximo. A cena termina com a idéia clara de que a segunda morte do Cabo Jorge vai ser abafada e tudo na cidade vai voltar ao seu ritmo normal.
O Berço do Herói (ou seja, a cidade de Cabo Jorge) acaba se tornando, também, o Túmulo do Herói.
Post. Guilerme
A Invasão, de Dias Gomes
Postado em Dias Gomes, Temas de Casa!!!, Vários em 1 de outubro de 2009 por sagradocaceteArgumento da peça “A Invasão”, de Dias Gomes
A peça teatral, “A Invasão”, foi escrita no início da década de 60. Estreando, no Rio de Janeiro, dois anos depois no Teatro do Rio. Porém, seis anos mais tarde, foi proibida pelo AI-5, órgão de repressão da ditadura militar. Traz na bagagem dois prêmio artísticos: o Prêmio Padre Ventura e o Prêmio Claudio de Souza. É composta de três atos e cinco quadros. O texto traz a discussão para o sério problema das pessoas sem moradia nos centros urbanos. Baseada em fatos reais, quando no final dos anos 50, um edifício em construção, próximo ao Maracanã (RJ) foi ocupado por famílias que perderam seus barracos, no morro, em decorrência das chuvas. Ficando conhecida como “Favela do Esqueleto”.
Na história de Dias Gomes, assim como na realidade, houve uma grande enchente e chuvas que provocaram o desabamento do morro onde moravam diversas famílias e pessoas, entre trabalhadores de fábrica, de obra, músicos populares, diaristas, faxineiras, entre trabalhadores que vieram do interior do norte e do nordeste para “tentar” a vida na cidade grande, além de vários outros contextos de vida. Essa tragédia deixou as pessoas – que já sobreviviam – em casas de madeira improvisadas sem lugar para morar. Acontece que perto dali tinha um prédio, em construção, que estava praticamente abandonado há três anos. Não se sabia a quem pertencia, nem a história da obra. As pessoas, que não tinham para onde ir ou para quem recorrer instalaram-se neste edifício. Foram ocupando, aos poucos, os “apartamentos” sem paredes. Entre eles, estavam o casal Lindalva e Bola Sete; a família Bené, Isabel e Lula (filho); a família Justino e Santa com os filhos Tonho, Rita, Malú e o bebê – que logo irá morrer – bem como, o Profeta da vila. No decorrer da peça vão sendo figuradas as características pessoais de cada personagem e suas inter-relações cotidianas. Além disso, toda a rede de exploração e opressão produzida pela sociedade da desigualdade que alimenta a corrupção, o “tira” proveito da situação de miserabilidade de grande parte do povo brasileiro, em geral. Temos então as personagens da “Polícia”, o deputado demagogo, Mané Gorila ( o espertalhão). Ele participa de todo um esquema que envolve desde o motorista do ‘pau-de-arara’ até o deputado Peralva. As pessoas que chegam do norte e do nordeste, são levadas até Mané G., que arranja um lugar para se instalarem, no morro. Consegue umas ripas de madeira e vende para a família construir seu barraco. Depois, passa a cobrar um valor pela ocupação do espaço e para manter a “segurança” dos moradores. A comunidade tem medo dele. É cabo eleitoral do dep. Deodato Peralva. E as autoridades policiais recebem propina para cooperarem com os interesses da opressão.
Logo após a morte do bebê de Santa e Justino – de fome, chegam dois “tiras” que vem para desocupar o espaço. Mas as pessoas resistem. Eles têm o pretexto da morte do bebê. A família, que fugiu da seca, em sua terra, no norte, já está acostumada com a morte. É o sexto filho que morre de fome. A figura de Lula representa a luta contra a exploração. E, rafael, seu amigo, seria um mentor intelectual. Ele “abriu” os olhos de Lula, que é operário em uma fábrica, sobre os direitos dos cidadãos, sobre a luta social do trabalhador. Eles entram em contato com um advogado para, numa esfera jurídica, requererm o direito de morar no prédio que ocuparam. A comunidade não acredita nessa possibilidade. São tratados como lixo onde quer que vão. Eis que aparece Mané Gorila para explorar as pessoas mais uma vez. Então, ele e o deputado Deodato P. Forjam, juntamente com o comissário de polícia, o despejo das famílias. A polícia chega bota uma pressão para que eles saiam. Um tempo depois chegam mané G. e o deputado e mandam a polícia embora. Muitas pessoas acabam por acreditar nas falsas promessas e nas “boas” intenções de Deodato. Também fica evidente a problemática do êxodo rural. No qual os indivíduos são obrigados a sairem de sua terra por não conseguirem mais produzir, por não haver água, por estarem esquecidos pelos governos, morrendo à míngua. Consequência do desvio de recursos públicos que serviriram para aplicação em obras de drenagem, por exemplo, como é feito nos grandes latifúndios do coronelado e, atualmente, das transnacionais de sementes transgênicas e do eucalipto. Os retirantes, na sua maioria, vêm para incorporar os grandes cinturões de pobreza das grandes cidades, sofrer humilhações e preconceitos, ser explorados e orpimidos. Estão longe de suas referências tendo que sobreviver no mundo cão. A palavra não vale nada, a solidariedade não existe. Só fome, lixo, miséria nas relações entre as pessoas e com o espaço. Para sobreviver Santa, com a filha Rita, passa a pedir esmolas nas ruas o que causa extrema humilhação e sentimento de impot~encia em Justino. Ele quer trabalhar mas não consegue emprego. O filho Tonho, depois de um tempo consegue trabalho como servente de pedreiro e todo o dinheiro que conseguem vão economizando para comprar as passagens para voltar ao norte. Mas estão sendo sempre explorados por Mané G., que faz ameaças caso eles não colaborem. Lula apaixona-se por Malú, quer viver com ela ali na ocupação. Mas a moça acaba aceitando a proposta do deputado para “trabalhar” com ele. Tornam-se amantes e ela vai morar num apartamento que ele lhe deu. Justino não aceita, rompe relações com a filha. Auxiliado por Rafael, Lula passa um abaixo-assinado para reivindicar aquele lugar para a moradia deles todos que estão ali. Quase ninguém acredita nesta luta. Passados seis meses, a polícia retorna à ocupação e prende o Profeta, que é acusado de comunista. Eles querem saber quem é o Rafael, onde ele mora. É um dito comunista. O Profeta nada sabe, porém, levam-no da mesma forma. Justino e Santa compram as passagens para retornar, em segredo. Seus três filhos não irão junto com eles. Saem sem pagar Mané G. que descobre pouco depois. Ele quer ir atrás do casal para acertar as contas. Tonho se revolta e acaba matando Mané G. com uma facada na barriga. A polícia chega no prédio. E quando todos acreditam que serão expulsos, recebem a notícia de que o juiz deu ganho de causa para eles. Tonho foge. Ritinha segue os passos da irmã. Bola Sete tem seu samba gravado. E tosos sentem-se vingados com a morte de Mané Gorila.
post. aline
Berço do Herói de Dias Gomes – Historia do Teatro Brasileiro Paulo F.
Postado em Dias Gomes, Temas de Casa!!! em 29 de setembro de 2009 por sagradocaceteHistoria do Teatro Brasileiro Paulo F.
Berço do Herói
De Dias Gomes
Argumento:
Escrito em 1962 e montado em 1965, foi censurado pela ditadura militar.
Nasceu em Salvador, Bahia, em 1922.
Morreu em S. Paulo, em 1999.
Dias Gomes dedicou-se ao teatro de características brasileiras, não só na temática como também na linguagem.
Quanto à temática, Dias Gomes optou pela realidade de nosso país no século XX. A constante foi mostrar, sob vários ângulos, o jogo dos articuladores do poder em detrimento de um povo sofrido, ignorante, ludibriado, manipulado. É o caso de
“O Santo Inquérito”, “O Pagador de Promessas”, “O Bem-amado”, “O Berço do Herói”.
“O Berço do Herói” tornou-se sua peça mais polêmica, porque teve problemas incontornáveis na época – ditadura militar – com a censura, uma vez que o texto foi considerado ofensivo às autoridades constituídas, as quais mandavam arbitrariamente no Brasil.
Quanto à linguagem, expressou-se de modo regionalista (recorreu a expressões típicas das regiões nas quais se desenvolviam os enredos) e simples (sem termos eruditos, inserindo palavras ou expressões usadas na comunicação oral, consideradas grosseiras, mas de largo uso nos textos modernistas e pós-modernistas).
Dias Gomes declarou que seu teatro era popular, no sentido de defender o povo – entendido como os menos favorecidos -; porém dirigido a espectadores elitizados. Sua intenção era falar à consciência da platéia não-popular, uma vez que o povo por ele defendido não estaria presente nas salas de espetáculo, por motivos óbvios.
“O Berço do Herói” foi uma peça escrita em 1963 e sua primeira encenação seria em 1965. Contudo, censurada, não foi levada ao palco. Em 1975, Dias Gomes fez uma adaptação ao texto desta peça para a televisão, sob o novo título de “Roque Santeiro”; mais uma vez, a peça não pôde vir a público. Só em 1985, a telenovela foi encenada.
Existe, pois um texto original de “O Berço do Herói” e outro texto. Este último não foi fruto da fuga à censura; portanto, manteve-se a intenção e orientação do primeiro. O próprio Dias Gomes, depois da exibição na televisão, resolveu introduzir novos elementos e alterar outros. O resultado foi “Roque Santeiro ou O Berço do Herói”.
Palavras do próprio autor: “As personagens, de tal forma haviam sido popularizadas pela televisão, que não teria sentido mantê-las com os nomes originais. Fui tentado também a retrabalhar a peça, enriquecendo-a com algumas cenas sugeridas pela novela.
PERSONAGENS:
Chico Malta
Conhecido como Sinhozinho Malta: grande fazendeiro; chefe político da cidadezinha de Asa Branca, no interior da Bahia; deputado federal. Mantém sua força construída demagogicamente sobre a ignorância do povo. Consegue beneficiamentos para a região, sempre levando vantagens pessoais. Sem escrúpulos, exerce a política enquadrada no seguinte princípio: “Política se faz com a mão esquerda na consciência e a mão direta na merda”.
![]()
Porcina:
ex-empregada doméstica; amante de Chico Malta. Em decorrência dessa sua ligação, adquire ótima situação financeira. Toma ares de madame, mas não tem bom gosto, não melhora seus conceitos e permanece vulgar, sem controle sobre seus ímpetos sexuais.
Florindo Abelha: prefeito despersonalizado, totalmente dominado por Chico Malta. Ele procura mostrar poder, porém só consegue manter a imagem de autoridade.
Dona Pombinha: mulher do prefeito. Beata em sua religiosidade próxima do fanatismo.
Mocinha: filha do prefeito e de D. Pombinha; namorada do Cabo Roque. Solteira por frustração resolve assumir o voto de castidade; assim, ela consegue certo equilíbrio, por se achar virtuosa.
Padre Hipólito: vigário que se constitui numa das pessoas mais influentes do lugar. Obcecado pela implantação de uma rígida moral sexual, acaba aceitando benefícios financeiros da situação imoral que ele combate o comércio da prostituição.
Zé das Medalhas: comerciante que enriqueceu por ter modernizado e monopolizado a fabricação e comercialização das medalhas em memória do Cabo Roque.
Cabo Roque:![]()
rapaz que esteve na guerra e desertou, mas, por interpretação equivocada de seu desaparecimento, se tornou herói mítico.
Matilde: proprietária da casa de prostituição.
Prostitutas: Ninon e Rosali.
Figura popular: Toninho Jiló.
Militar: General.
NOTA – No texto original, além de algumas personagens secundárias a mais ou diversas das acima citadas, havia as seguintes diferenças em relação às principais personagens: Major Chico Manga; Antonieta; Cabo Jorge; Lilinha.
ENREDO
Chico Malta morava em Asa Branca, com mulher e filhos, mas ficou conhecendo Porcina em Salvador, ao praticar suas aventuras sexuais.
Irresistivelmente atraído por Porcina, resolveu levá-la para Asa Branca e torná-la sua amante. Não queria, porém, fazer isso ostensivamente. Precisava de um pretexto.
Um rapaz daquela cidade, chamado Roque, tinha sido convocado para a guerra na Itália e se tornou cabo. No campo de batalha, ele fugiu da trincheira, por pura covardia. Como, no entanto, essa fuga foi tão absurda – porque ele a empreendeu movida por um medo irracional – pareceu ser um ato de heroísmo (só um herói teria ousado o que ele ousou!) Ao fugir, balearam-no de leve, no ombro, o que não o impediu de, depois de desmaiar, continuar fugindo. Deparou com um camponês morto; trocou de roupa com ele e se escondeu numa vila italiana perdida nas montanhas, passando por português. Terminada a guerra, Roque não voltou para o Brasil porque era um desertor.
Em todo o período de desaparecimento, o Cabo Roque foi cultuado como um herói. Chegou a ter seu nome homenageado no Exército, em cujo boletim constava sua morte no dia 18 de setembro de 1944, conforme ordem do dia do 6º Regimento de Infantaria.
Na ocasião em que Malta levou Porcina para Asa Branca, o culto do herói estava começando. Então, Malta teve a idéia de tornar Porcina a viúva do Cabo Roque; para tanto, falsificou a documentação. Assim, ele passou a se encontrar sempre com a amante, simulando dar apoio à viúva de um herói.
Mocinha ficou decepcionada com o casamento ignorado de Roque. Quando veio a público a existência de Porcina como viúva de Roque, Mocinha pensou até em ingressar num convento. Depois, com o voto de permanecer solteira, de certa forma se sentiu até realizada na condição de eterna namorada de um herói.
Em função de ser terra de um herói nacional, Asa Branca se tornou alvo de iniciativas que a fizeram agitar-se e tornar-se conhecida. Por exemplo: à custa do mito do herói, Chico Malta demagogicamente se elegia e conseguia melhoramentos para a região e para benefício próprio, como foi o caso da construção de uma estrada que teve seu percurso desviado para passar pelas terras dele; Zé das Medalhas se tornou rico por cunhar medalhas com a efígie do Cabo Roque… No campo do lazer, Asa Branca passou a oferecer opções novas: um bordel mais sofisticado e uma boate. Apesar de o Pe. Hipólito combater a exploração comercial do sexo e levar seu grupo de beatas a uma violenta reação contra as prostitutas, ele recebia donativos destas.
Tudo indicava que Asa Branca iria continuar em sua rota de se celebrizar e tirar proveito turístico com o mito do herói. No entanto, de repente aconteceu algo que desmontaria todo o esquema armado: numa madrugada, quinze anos depois do término da guerra, em decorrência da anistia que favoreceu os desertores, o Cabo Roque desembarcou em Asa Branca para lá se fixar. Em momento algum, lhe passara pela cabeça ter sido, equivocadamente, considerado um herói no Brasil.
Depois de conversar com Matilde, que não o conhecera antes, o cabo foi procurar Porcina, sem saber quem ela era. A partir de sua conversa com a “viúva”, informou-se da situação embaraçosa em que estava envolvido. Porcina o manteve escondido em sua casa e se comunicou com as pessoas importantes da cidade: Chico Malta, Padre Hipólito, o Prefeito, Zé das Medalhas. Apavorados, eles se reuniram para deliberar o que se deveria fazer. Pensaram até em oferecer a Roque uma boa soma de dinheiro para que ele voltasse para a Europa, sumisse de Asa Branca. Além de isso ser arriscado – ele poderia vir a público denunciar o engano – o cabo não aceitou a idéia.
Chico Malta resolveu ir ao Rio de Janeiro e se comunicar com o Exército para buscar uma solução, pois os militares também teriam interesse no caso. Enquanto ele esteve fora, Porcina e os demais resolveram que iriam anunciar e festejar o retorno do herói, dizendo que ele fora dado como morto por engano e que, na verdade, Roque teria estado vagando pela Europa todo este tempo por ter perdido a memória.
Do Rio voltou Malta trazendo um general que tinha sido comandante do Cabo Roque e que se empenhara nas homenagens ao herói “morto”. A idéia de promover o retorno festivo do Cabo Roque agradou a Malta, mas o general não concordou de modo algum com essa farsa: afinal o rapaz fora um covarde!
A solução não foi declarada, mas executaram-na: aconselharam Roque a ir se divertir no bordel, onde ninguém o conhecia. Em troca de ser dada autorização para que Matilde montasse a Boate Sexus, ela daria um jeito de eliminar o rapaz. Coincidentemente, as beatas fanáticas foram incitadas a se dirigir ao bordel justamente quando Roque estava lá e apedrejar a casa. Enquanto as pedras caíam e quebravam a vidraça, Matilde teve a idéia de, com um caco de vidro, matar Roque, alegando que a morte ocorrera porque um estilhaço perdido atingira o rapaz. Enterraram-no, sem que o povo desconfiasse que se tratava do famoso Roque.
A cena final é o discurso do prefeito na inauguração da Boate Sexus, iniciativa que fazia parte de um plano de turismo e diversão para o município, “plano que, se Deus quiser, há de fazer de Asa Branca uma cidade digna do Cabo Roque, aquele que morreu lutando pela democracia e pela civilização cristã.” (Aplausos).
Campeões do Mundo – Dias Gomes
Postado em Apresentação dos Trabalhos, Dias Gomes em 28 de setembro de 2009 por sagradocaceteEscrita por Alfredo de Freitas Dias Gomes em 1979 e encenada no dia 4 de novembro de 1980 no teatro Vila Lobos no Rio de Janeiro. Campeões do Mundo teve uma importância fundamental na história do teatro brasileiro, por ter sido a primeira peça a fazer um balanço da situação política entre os anos de 1964 e 1979 com inteira liberdade, sem utilizar de metáforas e alusões para iludir a censura.
Essa discussão aberta sobre temas essenciais coloca a peça de Dias Gomes numa posição diferenciada na dramaturgia nacional o que lhe proporciona ampla empatia e interesse.
Campeões do Mundo expõe diferentes pontos de vista discutindo através de seus personagens e acontecimentos o valor da ação de guerrilha.
Ribamar, que abandona a carreira de publicitário alegando ser uma questão de consciência, volta ao Brasil após um exílio de nove anos e encontra Tânia junto a um grupo de manifestantes que o esperam no aeroporto. Eles são os dois únicos remanescentes do grupo, que anos antes, seqüestrou um embaixador norte americano reivindicando a libertação de quarenta presos políticos.
A peça alterna momentos anteriores e presentes ao seqüestro, até momentos presentes e posteriores a volta do exílio. O seqüestro ocorre paralelamente a Copa do Mundo de 1970, fato que inspira o título da peça.
Tânia é filha de Frederico Müller, empresário que apóia o regime militar, o que resulta em um grande conflito entre os dois, já que Tânia identifica-se com a causa revolucionária.
Tânia e Ribamar unem-se a Carlão e Mário (Velho). Carlão tem uma postura mais radical a ponto de ir até as últimas conseqüências. Já Mário, apesar de determinado tem um ar de tranqüilidade e inspira confiança, aparenta pouco mais de cinqüenta anos, é casado, pai de dois filhos. Diz-se cansado de teorias revolucionárias e após tantos anos decidiu vivê-las na prática.
Os quatro seqüestram o embaixador americano, um homem aparentemente tranqüilo, que mostra-se preocupado ao decorrer das negociações, é um homem com problemas cardíacos.
Os guerrilheiros levam o embaixador para um apartamento e iniciam o processo de negociações com o governo. O período de negociações é tenso: há diferenças entre Carlão e Ribamar. Ao longo do seqüestro, desenrolam-se uma série de diálogos onde ficam evidenciados os conflitos dos personagens.
Policiais rondam o apartamento (aparelho revolucionário), fingindo serem vendedores. O cerco aos poucos vai se fechando. Ouve-se o som de um helicóptero, ha um clima de tensão. Ribamar e Carlão discutem porque Carlão força Ribamar a atirar no embaixador. Mário (velho) acalma os dois quando Tânia os chama para verem as imagens na televisão que mostram os presos embarcando para a Argélia.Todos ficam eufóricos, inclusive o embaixador.
Ribamar e os outros fogem separados.
Carlão aparece morto numa sala de torturas.Mário (velho) é assassinado na frente da sua esposa.
A peça encerra após um diálogo de Tânia e Ribamar, ao som do hino “Pra frente,Brasil”
Cleber Vinícius dos Santos

