Arquivo para a Teatro Negro no Brasil categoria

V Encontro de Matriz Africana!!!

Postado em Alô Turma, Teatro Negro no Brasil em 2 de dezembro de 2010 por sagradocacete

V ENCONTRO DE ARTE DE MATRIZ
AFRICANA

 

 

TEATRO NEGRO, algumas considerações…

Postado em História do Brasil, Historia do Teatro Brasileiro, Teatro Negro no Brasil em 9 de junho de 2010 por sagradocacete

http://www.youtube.com/watch?v=Rm49WLD1e7k&feature=PlayList&p=B31AA6CFD59D12D6&playnext_from=PL&playnext=1

ps. é o link da última parte…. não sei porque não tá rolando de entrar direto o vídeo, mas…… tb não é difícil de achar assim!! hehehehe

TEATRO NEGRO NO BRASIL

 

Contexto Histórico/Origens, surgimento…

Início do Século XVI:

Brasil – colônia

  • 1549: Tomé de Souza desembarca no Bahia. Com ele vieram provavelmente os primeiros escravos brasileiros;
  • Padre Anchieta – primeiras iniciativas de teatro no Brasil (do ponto de vista do branco, pois já existiam as manifestações ritualísticas dos povos indígenas que expressam diversos elementos do fazer teatral na sua essência). Escreveu Autos na forma européia (1567/1570);
  • 1630: Data provável da formação do Quilombo dos Palmares. Palmares ocupou a maior área territorial de resistência política à escravidão. Ela foi uma das maiores lutas de resistência popular nas Américas;
  • Paralelo aos Autos jesuítas (séc. XVI), também os escravos promoviam representações dos seus Autos profanos: a Congada, as Taieiras, o Quicumbre, os Quilombos e o Bumba-Meu-Boi (adaptado pelos escravos, com a introdução de personagens como Mateus e Bastião, por exemplo).

Século XVIII:

  • Casas da Ópera ou Casas da Comédia, que começaram a se espalhar pelo país. A Casa de Ópera do Rio de Janeiro foi construída pelo “mulato e corcunda”, Padre Ventura;
  • Entre 1753/1771, Chica da Silva – ex-escrava – manteve, em Diamantina (MG), um teatro particular onde assistia ao repertório clássico da época;
  • 1790: Interpretação célebre do ex-escravo e ator Vitoriano como “Tarmelão da Pérsia”, em Cuiabá;
  • A atividade teatral era uma profissão desprezível, abaixo das infames e criminosas. No século XVIII e início do XIX, os atores eram pessoas das classes mais baixas, em sua maioria mulata. Havia um preconceito contra a atividade, sendo proibida a participação de mulheres nos elencos. Dessa forma, eram os próprios homens que representavam os papéis femininos, passando a ser chamados de “travestis”;
  • O mulato personificava, concomitantemente, a convergência e a repulsa entre a Casa Grande e a Senzala. Destinavam ao mulato, funções como a de feitor e de capitão-do-mato e, mais tarde, a de ator teatral;
  • Houve grande influência estrangeira no teatro brasileiro nessa época. Como por exemplo, Molière, Voltaire, Maffei, Goldoni e Metastásio.

Século XIX:

Império do Brasil

  • Marcado por um modelo de representação apoiado em vícios que tornavam a negrura um signo indesejável e pejorativo, sendo o negro dramatizado por representações grosseiras e linguagem preconceituosa;
  • Quase total ausência de uma dramaturgia que buscasse na história do negro as formas que expandissem o conhecimento sobre a herança cultural dos povos africanos no Brasil;
  • 1808: Vinda da família real portuguesa, iniciando uma mudança no panorama teatral do Brasil. O negro e o mulato passaram a ser excluídos da cena ou retornando aos personagens estereotipados, o modelo de representação e dramaturgia agora é o francês;
  • Na primeira metade do século, no reinado de D. Pedro I, surge João Caetano, o primeiro grande ator e impulsionador do teatro brasileiro. Que, depois de sua montagem de “Antonio José” ou “O Poeta e a Inquisição” (1838), de Gonçalves de Magalhães, dá início a um teatro com temas e atores brasileiros;
  • 1811: Apresentação, no Rio de Janeiro, dos escravos Caetano L. dos Santos e Maria Joaquina – Rei e Rainha da Congada;
  • 1833: é fundado o Jornal “O Homem de cor” por Paula Brito, o primeiro jornal brasileiro a lutar pelos direitos do negro;
  • 1835: Levante de negros urbanos de Salvador. Segundo historiadores, a Revolta dos Malês foi a mais importante revolta urbana de negros brasileiros, pelo número de revoltosos, grau de organização e objetivos militares. Elas se inscrevem entre as grandes revoltas assistidas pela cidade no século;
  • Por volta de 1838, o teatro fica marcado pela tragédia romântica de Gonçalves Magalhães com a peça: “O Poeta e a Inquisição” e também Martins Pena com “O juiz de paz na roça”. Martins Pena com toda sua simplicidade para escrever, porém justa eficácia para descrever o painel da época, teve seguidores “clássicos” de seus trabalhos, como Joaquim Manoel de Macedo, Machado de Assis e José de Alencar;
  • Foi em 1880, em Lagos, na Nigéria que escravos brasileiros libertados deram um enorme salto no desenvolvimento do teatro, fundando a primeira companhia dramática brasileira – a Brazilian Dramatic Company, dedicada ao teatro e à música;
  • 1888: Promulgada a  Lei Áurea. Que extingue a escravidão no Brasil. O país é o último a abolir a escravidão do ocidente.

Século XX:

República Federativa do Brasil

  • 1926: Surgimento da Companhia Negra de Revistas – Teatro de Revista, um entretenimento popular de gênero musicado no qual eram apresentadas as novidades e acontecimentos sociais e políticos do momento;
  • 1931: Nasce a Frente Negra Brasileira (FNB) que chegou a reunir mais de 100 mil pessoas em diversos Estados do país. A organização pleiteava sua transformação em partido político. No ano de 1937, com a instalação do Estado Novo, a FNB é colocada na ilegalidade;
  • 1932: É formado em São Paulo, o Clube do Negro de Cultura Social. Seus dirigentes editavam o jornal O Clarim da Alvorada, um dos mais importantes na história;
  • 1944: Surge o Teatro Experimental do Negro (TEN);
  • 1945: Renasce o Movimento Negro no país. Em São Paulo, surge a “Associação do Negro Brasileiro”, fundada por ex-militantes da FNB. No Rio de Janeiro é organizado o “Comitê Democrático Afro-Brasileiro”, com o objetivo de defender a constituinte, a anistia e o fim do preconceito racial e de cor. Realiza-se a primeira “Convenção Negra Brasileira”, com representantes do RJ, MG, ES, RS e SP, em São Paulo;
  • 1948: Surgem a “Frente Negra Trabalhista” e a “Cruzada Social do Negro Brasileiro” (SP); a “Turma Auriverde e Grêmio Literário Cruz e Souza” (MG) e a “União Cultural dos Homens de Cor” (RJ);
  • 1949: Realiza-se, no RJ, o “Conselho Nacional de Mulheres Negras”;
  • 1950: Aprovada a Lei Afonso Arinos, que condena como contravenção penal a discriminação de raça, cor e religião, também é criado o “Conselho Nacional de Mulheres Negras”;
  • 1969: O governo do general Emílio G. Médici proíbe a publicação de notícias sobre o Movimento Negro e a discriminação racial;
  • 1971: Surge, em POA/RS, o Grupo Palmares;
  • 1975: No “Congresso das Mulheres Brasileiras”, realizado no Rio de Janeiro, mulheres negras denunciam as discriminações racial e sexual a que estão submetidas. Realiza-se em São Paulo a “Semana do Negro na Arte e na Cultura”. O movimento articula apoio às lutas de libertação nacional travadas no continente africano. Surgem várias entidades de combate ao racismo. Em São Paulo surgem o “Centro de Estudos da Cultura e da Arte Negra (Cecan)”, a “Associação Cristã Beneficente”, o “Movimento Teatral Cultural Negro”, o “Grupo de Teatro Evolução”, a “Associação Cultural e Recreativa Brasil Jovem”, o “Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas (IBEA)”, a “Federação das Entidades Afro-Brasileiras do Estado de São Paulo”. No Rio de Janeiro surgem os “Grupo Latino- Americano”, o “Instituto de Pesquisas da Cultura Negra (IPCN)”, a “Escola de Samba Gran Quilombo”, a “Sociedade de Intercâmbio Brasil-África”;
  • 1976: O governo da Bahia suprime a exigência de registro policial para os templos de ritos afro-brasileiros;
  • 1977: Quatro jovens atletas são discriminados no Clube Regatas Tietê. Nos rastros dessas denuncias surge o “Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial”, mais tarde, “Movimento Negro Unificado (MNU)”. Na assembléia nacional do MNU é aprovada a comemoração do Dia Nacional de Consciência Negra, em 20 de novembro em celebração a memória do herói negro Zumbi dos Palmares. Surge o “Movimento de Mulheres Negras”;
  • 1978: Consolidação do “MNU – Movimento Negro Unificado”, em  São Paulo. É declarado pelo MNU o dia 20 de novembro o dia da consciência negra;
  • 1979: O quesito cor é incluído no recenseamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) por pressão de sociólogos e pesquisadores e segmentos da sociedade;
  • 1982: Morre em Salvador o Mestre Pastinha. É tombado o primeiro terreiro de candomblé do Brasil: o Terreiro da Casa Branca Ile Axê, Ia Nasso Oka Bahia;
  • 1986: Tombamento da Serra da Barrija, local onde se desenvolveu o Quilombo dos Palmares; a gaúcha Deise Nunes de Souza é  coroada miss brasil é a primeira miss brasil negra;
  • 1987: Fundado o “Instituto do Negro”, em São Paulo;
  • 1989: Nasce no mês de novembro o jornal Umbandomblé que passou a ser Umbanda&Candomblé, Ciência, Cultura e Magia e hoje conhecido por U&C, Ciência, Cultura e Magia;
  • 1990: É inaugurado, no município de Volta redonda – RJ, o memorial Zumbi dos Palmares.

Grupos de Teatro Negro – Brasil 

 

Década de 1920:

  • Companhia Negra de Revistas, fundada por João Cândido Ferreira (1887-1956) – artista mulato conhecido por “De Chocolat”;
  • A Ba-Ta-Clan Preta”, fundada por “De Chocolat”, logo após o rompimento com a Companhia Negra de Revistas. Em meio a grandes dificuldades, durou pouco mais de um mês, exibindo-se em São Paulo no fim de 1926, quando se dissolveu.

Década de 1950:

  • Balé Brasiliana, fundado por Haroldo Costa;
  • Teatro Popular Brasileiro (TPB), fundado por Solano Trindade. Almejava levar ao palco a herança cênica e performática das tradições culturais brasileiras, principalmente aquelas formatadas pelos estilos e matrizes de origem africana. Fazia uma leitura séria de danças como maracatu e bumba-meu-boi. Também promovia cursos de interpretação e dicção. Era formado por operários, estudantes, empregadas domésticas, gente do povo. E os espetáculos elaborados com recriação de batuques, caboclinhas, jongos, congadas, lundus, caxambus, cocos, capoeiras, etc. A primeira montagem foi “Orfeu da Conceição”, de Vinícius de Moraes. Em 1955, turnê à Tchecoslováquia e à Polônia. A iniciativa do grupo foi inibida durante a ditadura militar. O TPB mostrou seu trabalho em vários países.

Década de 1990:

Fortalece-se o estudo da cultura negra, no Brasil. Através de movimentos e iniciativas artísticas afro-descendentes, que visam preencher as lacunas e minimizar o apagamento sistemático da experiência negra no discurso historiográfico e artístico brasileiro.

Rio de Janeiro:

  • Cia. Étnica de Teatro / Carmem Luz;
  • Cia. Dos Comuns / Hilton Cobra;
  • Cia. Rubens e Barbot;
  • Cia. Black&Preto…

Pernambuco:

  • Grupo de Teatro Atual;
  •  Movimento de Teatro Popular…

Porto Alegre:

  • Grupo Caixa Preta; …

Belo Horizonte:

  • Cia. Seraquê / Rui Moreira;
  • Teatro Negro e Atitude…

Salvador:

  • Cia. De Teatro Popular da Bahia;
  • Bando de Teatro Olodum / Márcio Meireles…

 

Companhia Negra de Revistas

 

A Companhia Negra de Revistas foi Idealizada e fundada por João Cândido Ferreira (1887-1956) – artista, mulato, conhecido no mercado revisteiro por “De Chocolat”. A companhia teve como referências mais imediatas modelos do teatro norte-americano que, ao final da década de 1910, tiveram grande sucesso na Europa e, em particular, na França. Num momento em que discursos preconceituosos, de inferioridade racial estavam em debate na sociedade seguiram-se as encenações das peças de De Chocolat, como por exemplo, “Tudo Preto”, “Café Torrado”, “Carvão Nacional”, entre outras. A companhia trouxe à tona as relações entre a questão racial e a nacionalidade brasileira, a participação do negro na sociedade, por exemplo. As peças da companhia defendiam um Brasil “mestiço”, sendo possível a boa convivência racial. Tinha o formato do Teatro de Revista, um entretenimento popular de gênero musicado no qual eram apresentadas as novidades e acontecimentos sociais e políticos do momento. Artistas talentosos trabalharam na Companhia, como Pixinguinha e Grande Othelo, que entrou para a Companhia Negra no momento em que ela chegou à capital de São Paulo seguindo com ela para todos os lugares para onde excursionou, menos para o Rio Grande do Sul. Integrou o elenco por cerca de cinco meses.

 A simples existência da “Negra” causou grande impacto na cena do entretenimento carioca. Sua trupe era composta quase inteiramente por artistas negros e mulatos e seus espetáculos trabalhavam as questões referentes à cor e à cultura afro-brasileira. Durante a existência da Companhia, houve algumas vezes menção a uma excursão à Argentina, ao Rio de Janeiro, ao Recife, à Bahia e, por fim, ao Rio Grande do Sul. Quando a trupe estava na Bahia em abril de 1927, um dos jornais locais, Diário da Bahia, noticiou que uma empresa argentina convidara a Companhia para uma excursão à Argentina, ao Uruguai, podendo ainda se estender à Europa. Em junho, já no Rio Grande do Sul, o assunto voltou ao foco e com grande estardalhaço. Uma revista do Rio de Janeiro especializada em teatro, entre outras considerações, publicou: “Não é o caso dos poderes públicos, principalmente do Ministério das Relações Exteriores, evitarem essa propaganda do nosso país e, logo onde, na República vizinha e amiga?”. A SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais) reuniu seu Conselho Deliberativo e decidiu contra a excursão, pois, como a mesma “redundará em descrédito do nosso país, a SBAT, como lhe cumpre, irá agir energicamente a fim de impedir a consumação desse atentado aos foros de nossa civilização”. Ainda declararam que iriam constituir uma comissão para convencer a Companhia a desistir de seu intento e, caso insistisse, teria a SBAT “de agir por meios mais eficazes”.  Iniciou-se uma campanha, envolvendo inclusive os poderes públicos e o próprio Ministério das Relações Exteriores, no sentido de impedir tal “propaganda” do país. De certo modo, já frágil por uma série de conflitos internos, o episódio foi decisivo para a dissolução da Companhia Negra de Revistas. Contudo, ainda que impedida de mostrar aos argentinos um país negro, as peças da companhia já apontavam para o esgotamento social, cultural e político das apostas num projeto de Brasil branco. Mesmo desprezados e considerados cidadãos de segunda classe, os afro-brasileiros não podiam mais ser ignorados como elementos formadores da sociedade, da cultura e da “civilização” brasileiras.

 

TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO

 

Um projeto cultural amplo fundado por Abdias do Nascimento, em 1944. Reunindo educação, arte e cultura. Dentre as atividades, a função teatral e outras ações culturais e sociais que visavam alcançar transformações radicais no palco e na sociedade em geral. Um laboratório de experimentação artística… Existiu como o desmascaramento da hipocrisia racial que permeia a nação. Foram realizados cursos, congressos com ênfase na troca de idéias e experiências na análise e discussão sobre o afro brasileiro. As atividades do TEN incentivam a criação de iniciativas semelhantes. No Rio de Janeiro, em 1950, Solano Trindade funda o Teatro Popular Brasileiro; em São Paulo, os grupos negros encontram na dramaturgia norte-americana uma fonte para suas encenações experimentais; Geraldo Campos de Oliveira funda também um Teatro Experimental do Negro, que se mantém em atividade durante mais de quinze anos e monta, entre outros, O Logro, de Augusto Boal, 1953; O Mulato, de Langston Hughes, 1957; Laio Se Matou, de Augusto Boal, direção de Raul Martins, 1958; O Emparedado, de Tasso da Silveira; e Sucata, de Milton Gonçalves, ambos em 1961.

Por duas vezes o TEN é impedido de participar de festivais negros internacionais pelo próprio governo brasileiro. Segundo a historiadora Miriam Garcia Mendes, no entanto, esses fatos não devem ser compreendidos apenas como fruto da discriminação racial: “… os movimentos de vanguarda, e o TEN era um deles, sempre enfrentaram grandes dificuldades, não só por falta de apoio oficial, como pela natural reação do público (…) habituado às comédias de costumes inconseqüentes ou dramas convencionais”.

Estreou com a peça “O Imperador Jones” (Eugene O’NEILL), em 05.05.1945, cenário de Enrico Bianco e atuação de Aguinaldo de Oliveira Camargo. Segue trecho da entrevista do “Bloguinho Intempestivo”, com Abdias do Nascimento, sobre a existência de um texto dramatúrgico que valorizasse o negro e a cultura africana ou afro brasileira:

Abdias: Nem ao menos um único texto que refletisse nossa dramática situação existencial, pois, como diria mais tarde Roger Bastie, o T.E.N. não era a catarsis que se exprime e se realiza no riso, já que “o problema é infinitamente mais trágico: o do esmagamento da cultura negra pela cultura branca”. Sem possibilidade de opção, O Imperador Jones se impôs como solução natural. (…) Escrevemos a Eugene O’Neill uma carta aflita de socorro. (…) De seu leito de enfermo, em São Francisco, a 6 de dezembro de 1944, O’Neill nos responde: “O senhor tem permissão para encenar o Imperador Jones isento de qualquer direito autoral, e desejo ao senhor todo o sucesso que espera com o Teatro Experimental do Negro. Conheço perfeitamente as condições que o senhor descreve sobre o teatro brasileiro. (…)” Encontramos em Aguinaldo de Oliveira Camargo a força capaz de dimensionar a complexidade psicológica de Brutus Jones. Em 1947, afinal, o encontro do primeiro texto brasileiro escrito especialmente para o T.E.N. — O Filho Pródigo, de Lúcio Cardoso e, também criado para o T.E.N., por Joaquim Ribeiro: Aruanda.

 

Na temporada seguinte foi encenada outra peça de O´Neill: “Todos os Filhos de Deus Têm Asas”, apresentada no Teatro Fênix, em 1946, com direção de Aguinaldo Camargo, cenários de Mário de Murtas, lançando uma atriz que se firmaria entre as maiores do nosso teatro: Ruth de Souza. Ano seguinte, encenou o primeiro original brasileiro do seu repertório: “O Filho Pródigo”, de Lúcio Cardoso.  Ainda em 1947, o TEN participa de Terras do Sem Fim, de Jorge Amado, adaptação de Graça Mello, com direção de Zigmunt Turkov, montagem em colaboração com Os Comediantes. Em 1949, é a vez de Filhos de Santo, de José de Morais Pinho, selecionado entre os textos escritos especialmente para o TEN. Contendo muitos elementos da cultura religiosa negra e pincelada de crítica social, a peça se baseia em uma situação maniqueísta em que uma jovem é enfeitiçada por um pai-de-santo vilão, que a rouba de seu amado. O espetáculo ocupa o Teatro Regina, com direção de Abdias do Nascimento e cenários de Tomás Santa Rosa. Em 1950, o TEN estréia Aruanda, de Joaquim Ribeiro, um dos poucos textos bem-sucedidos do repertório lançado pela companhia. Trata-se de uma lenda desenvolvida com recurso ao mistério e à sensualidade, sobre o amor entre Rosa Mulata e o Deus Gangazuma, com quem ela se encontra por meio de seu marido, que recebe o espírito do Deus. No ano de 1961, Abdias escreve a antologia “Dramas para Negros e Prólogo para Brancos”. O TEN, na década de 1960, conseguiu uma atuação relevante e representativa na história teatral brasileira. Promoveu uma transformação singular na modulação cênica do signo negro, a releitura e recomposição da subjetividade e da experiência histórica. O intérprete negro é o sujeito da sua auto-representação. Uma linguagem dramática e cênica alternativa: a negrura se erigia e era investida de um poder agenciador ímpar no cenário do teatro brasileiro. No final dos anos 60 a ditadura militar silencia o TEN.

Ideais do TEN:

  • Trabalhar uma experiência histórica positiva do afro-descendente;
  • Denúncia do racismo;
  • Ênfase na reconfiguração de temas, fábulas e personagens;
  • Pesquisa buscando todas as referências possíveis das culturas africanas e afro-brasileiras;
  • Construção de uma dramaturgia alternativa;
  • Corpo de atores que pudessem representar sua própria história.

Iniciativas do TEN:

  • Formação do intérprete negro;
  • Formulação de uma dramaturgia que reconfigurou a fabulação da experiência negra no Brasil;
  • Sublinhou a relevância da contribuição africana na formação da civilização brasileira;
  • Procedimentos que pudessem descortinar a ampla e complexa gama da experiência histórica, estética, cultural e subjetiva do negro;
  • Na década de 1950, a publicação da Revista Quilombo

 

 

Dilemas:

  • Formação de um público e a participação efetiva de uma audiência negra;
  • Dificuldade em conseguir patrocínio público e privado para suas iniciativas.

O principal objetivo do Teatro Experimental do Negro, como consta em vários textos publicados sobre este grupo, era dar condições ao negro de levar aos palcos personagens livres dos estereótipos que foram sendo absorvidos e reproduzidos pelo teatro brasileiro. Mas como levar arte a um povo subjugado e desacreditado em seus direitos de cidadão contribuinte na construção do seu país? Então, paralelo ao trabalho teatral – que tinha como atores empregadas domésticas, poetas, pintores, advogados, militantes negros e outros -, o TEN organizou uma série de atividades de valorização social do negro no Brasil através da educação, da cultura e da arte. No Brasil, enfrentando o tabu da “democracia racial”, o Teatro Experimental do Negro era a única voz a encampar consistentemente a linguagem e a postura política da negritude, no sentido de priorizar a valorização da personalidade e cultura específicas ao negro como caminho de combate ao racismo. Por isso, o TEN ganhou dos porta-vozes da cultura convencional brasileira o rótulo de promotor de um suposto racismo às avessas. Porém, o Teatro Experimental do Negro trouxe para a cena brasileira atores negros, e estes não atuavam apenas nos palcos, e sim em diferentes momentos da vida social, e não mais como coadjuvantes, mas como sujeitos de sua história.

 

TEATRO NEGRO E ATITUDE (TNA)

 

No caso de Minas Gerais esses propósitos surtem efeito a partir dos anos 90, quando surge o primeiro grupo de teatro negro em Belo Horizonte: TEATRO NEGRO E ATITUDE (TNA). Mesmo sendo de diferentes épocas e linhas de trabalho, ambos os grupos se assemelham por colocarem no centro da cena artista e atores negros.  A idéia de se ter um grupo de teatro apenas com atores negros em Belo Horizonte surge em 1993, quando ativistas do Movimento Negro Unificado se reuniam para definir suas estratégias partidárias e panfletárias intuindo agregar associados ao movimento para chamar a atenção da sociedade para as questões dos negros, dos favelados e periféricos da cidade. Em 13 de junho de 1994, após um ano de maturação, o ativista negro Hamilton Borges, apresenta para a cidade o TEATRO NEGRO E ATITUDE (TNA), com uma cara partidária, panfletária e didática. Seu surgimento foi uma conjuração poética, uma rebelião estética, uma pancada, uma conspiração cênica para que negros e negras de Minas Gerais fossem protagonistas da suas histórias, que se encontrassem no centro da criação e, nesse processo, tivessem por referência uma visão de mundo afro-descendente. Em 1995, quando a Secretaria de Cultura de Belo Horizonte (hoje Fundação Municipal de Cultura), através do Centro Cultural Inter regional Lagoa do Nado (CCILN), anunciou a implantação da Usina de Teatro, nascida para dar suporte técnico e pedagógico para grupos de teatro profissionais e semi-profissionais, o TEATRO NEGRO E ATITUDE, recém-nascido, logo se interessou em fazer parte desta experiência de descentralização e fomento da arte na periferia. Com passos firmes a Usina caminhou, estimulou e fortaleceu os grupos que atenderam o chamado.

O revigoramento do Teatro Negro no Brasil não é um fenômeno apenas mineiro, companhias e grupos vêm dando cor à cena teatral brasileira a partir dos anos 90, e estas dão continuidade às iniciativas dos anos 20, Companhia Negra de Revistas, dos anos 40 aos anos 60, Teatro Experimental do Negro, Teatro Popular Brasileiro, Grupo Brasiliana e Teatro Profissional do Negro – TEPRON, até hoje atuante. E como bem lembrado no I Fórum de Performance Negra, proposto pelo Bando de Teatro Olodum e Cia. dos Comuns, “para além de trabalharem em favor de uma mesma missão artística”, esses grupos e companhias contemporâneas, “compartilham dificuldades semelhantes. A escolha de repertório, a manutenção via patrocínio, a disponibilidade de pauta e o acesso aos meios de comunicação e ao público são quase sempre obstáculos, às vezes, intransponíveis”, ficando ainda relegado à cena paralela.

 

Referências Bibliográficas:

  • http://www.afinsophia.wordpress.com / Teatro Negro no Brasil – Uma Experiência Sócio-racial,
  • http://www.antaprofana.com.br,
  • http://www.estudeonline.net,
  • http://www.teatrodeafroamerica.wordpress.com,
  • Revista de Antropologia / resenha de Jeferson Bacelar

vol. 50 no.1 São Paulo Jan./June 2007,

  • Müller, Ricardo Gaspar> Identidade e Cidadania: o teatro Experimental do Negro. In: Revista Dionysios, nº29, 1998.

       POst. Aline Ferraz

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