Dia 20 de dezembro desse ano marcou 30 anos sem o menino que via o mundo pelo burraco da fechadura.Nenhum autor jamais superou Nelson no romance literário,está para nascer um punho que derrame tanta paixão.
Dia 20 de dezembro desse ano marcou 30 anos sem o menino que via o mundo pelo burraco da fechadura.Nenhum autor jamais superou Nelson no romance literário,está para nascer um punho que derrame tanta paixão.
30 anos sem Nelson Rodrigues (23 de agosto de 1912 – 21 de dezembro de 1980)
Nesse ano, completa-se trinta anos desde que Nelson Rodrigues nos deixou. Natural de Recife, é o pernambucano mais carioca do qual se tem notícias. Nasceu em 1912, era um dos quatorze filhos de Maria Esther e Mario Rodrigues. Sua história de vida foi a fonte de sua literatura. Era o menino que espiava o amor pelo buraco da fechadura e choramingava “Eu sou um triste!”, jovem iniciado como escritor de colunas policiais nos jornais de seu pai (jornais, pois alguns foram empastelados, devido a acidez jornalística com a qual Mario Rodrigues regia suas publicações, recheadas de crimes animalescos, disputas políticas e “futebolísticas” acirradas), sua paixão pelo Fluminense e claro,a morte por doença de alguns de seus irmãos e pai. E o mote para o teatro Rodriguiano: o assassinato do irmão Roberto.
O texto é singular, ninguém até hoje se compara a Rodrigues ( talvez as tentativas bem tímidas de Xico Sá), as palavras são pontiagudas e os personagens vivem em um mundo onde não se pode não ser visceral. Sua experiência como escritor se dá primeiramente como redator da sessão policial do jornal A Manhã, jornal de seu pai. Ao longo dos anos, viria a escrever em outras publicações e em sessões diversas; na de esportes mostrando toda sua devoção pelo fluminense, fazendo critica de ópera e crônicas sobre o que de mais polêmico havia no momento, de criticas políticas á texto ficcionais. Surgem aí os repórteres sanguessugas (caveirinha!) e os torcedores doentes, personagens que se repetiram tanto nas crônicas quanto nas suas futuras obras teatrais.
Em 1941 seu punho derrama “A mulher Sem Pecado”,sua primeira peça, mas seria com “Vestido de Noiva” de 1943 que abriria as pernas cruzadas do teatro brasileiro. A encenação do drama de Alaíde foi dirigida pelo polonês Ziembinski e revoluciona a maneira do fazer teatral. Escreveu 18 peças ao longo de sua vida, divididas em peças psicológicas, peças míticas e tragédias cariocas.
Acredito que nos textos rodriguianos há uma busca do leitor pela redenção dos personagens, que anseiam por algo que não vinga, seja um romance, um enterro digno, uma purificação. Há uma identificação, afinal estamos fadados a uma vida patética e trágica. Arriscaria dizer: ”uma lamentável comédia de lascar”. Particularmente, Nelson é um autor que não abandono, que é sempre especial ler. Meu primeiro contato foi com o romance “Asfalto Selvagem” que conta a saga de Engraçadinha, mulher que pecou na juventude e tenta purificar-se, mas claro, o desejo é infernal e incontrolável. Até quando se busca ser bom, temente a Deus e aparentemente recatado, o desejo vem pra desandar tudo, pintando um mundo sangrento, canalha e voluptuoso. E é esse universo que é instigante, esse universo que eu penso, tão real e cotidiano.
“O Casamento”; ”Beijo no Asfalto”;”Meu Destino é Pecar”(por Suzana Flag, sua outra faceta,uma mistura de Marlene Dietrich com Ingrid Bergman) são obras quase que violentas,deliciosas e angustiantes. Tudo com um toque muito pessoal, momentos desses textos tem relação direta com fatos que o próprio Nelson presenciou ao longo de sua vida, cheia de altos e baixos. A família Rodrigues intercalou durante anos fases de fartura e muita dificuldade financeira, Nelson teve contato com intelectuais amigos de seu pai e com vizinhos e tias fofoqueiras nos subúrbios cariocas. Viveu paixões platônicas e um amor eterno por Elsa Bretanha que o acompanhou até o fim da vida. Li “O Anjo pornográfico – A vida de Nelson Rodrigues”, biografia escrita por Ruy Castro, e saquei que a vida do próprio Nelson foi uma trama incrível. Do adolescente que conheceu o amor com uma prostituta da rua Benetido Hipólito, que era tachado de desengonçado e esquisito pelas meninas que queria levar pra tomar um gelado ao “tarado reacionário”, “maldito de suspensórios”.
Ninguém na literatura nacional carregou nas costas tantas polêmicas quanto o terrível e inevitavelmente adorável Nelson. Nelson do contra, que praguejou contra o destino de todos, que jogou soda caustica no dito, ”bom senso” e que encharcou os palcos com muito sangue quente. Até hoje detestado por alguns, Nelson assombra, estimulando ódios e hormônios. O fato de ter se tornado uma contradição ambulante foi o que salvou Nelson de ser um “óbvio ululante”. Antes maldito por uns e querido por outros que causador de paixão nacional, afinal, toda unanimidade é burra.
Estamos ai nos preparando para fazer mas uma das leituras de Nelson Rodrigues todas as segunda feiras ás 19:30h na Terreira da Tribo, a primeira leitura foi Vestido de Noiva (Foto Ilustrativa a Baixo) e foi no dia 27 de Julho e Anjo Negro (Foto Ilustrativa a Baixo) foi no dia 03 de Agosto, sempre com a presença de Tania F e Caco C. na colaboração da atividade queremos tornar permanente este encontro como a formação de um grupo de estudo para Leitura e estudos de diferentes
Autores, Encenadores e Pesquisadores do Teatro com a participação fundamental dos Oficinandos da Escola de Formação de Atores (Oficina para Formação de Atores do Ói Noís Aqui Traveiz).
Para que possamos criar uma dinâmica de atividades aonde a colaboração e a pesquisa possa Nutrir nossa alma e Estigar nossas Mentes e Satisfazer nossos Corações de Teatro e Alegria Evóe…
São os Oficinandos participantes; André, Anelise, Aline, Carol,Camila, Raquel, Letícia, Sandra, Guilherme, Eduardo, Paola, Observadores; Jones, Denis, Cleber.
Foto Ilustrativa Anjo Negro Foto Ilustrativa Vestido de Noiva
Posta: André de Jesus
Trabalho da disciplina de Interpretação A – Paulo Flores
ANJO NEGRO / TRAGÉDIA EM 03 ATOS, de Nelson Rodrigues
Apresentada no Teatro Fênix – RJ, em 02/04/1948 – Interditada em janeiro do mesmo ano.
Produção e cenários: Sandro
Direção, cenários e figurinos: Ziembinski
“A ação se passa em qualquer lugar, em qualquer tempo.”
Personagens: Ismael, Virgínia, Elias, Ana Maria, Tia, Primas, Criada, Coveiros de crianças e o coro das pretas descalças.
PRIMERIO ATO/ DIVIDIDO EM 1º E 2º QUADROS
1º QUADRO:
Na casa de Ismael, o Grande Negro: terno panamá, branco, engomadíssimo, sapatos de verniz; encontram-se, no andar térreo – onde está acontecendo um velório – dez senhoras pretos que, “têm sempre tristíssimos presságios…” E, que rezem sempre. É um caixão de anjo.
Em cima está Virgínia, a esposa branca que veste luto fechado. Está virada de costas para a platéia. É o quarto, onde estão duas camas – sendo uma quebrada, bagunçada e a outra normal. Uma escada longa e estilizada. A casa não tem teto. Grandes muros, ao fundo. Está acontecendo o velório do terceiro filho de Ismael e Virgínia, com a mesma idade dos outros e, negro também. São as “senhoras” que iniciam comentando o fato preconceituosamente. “Mulher branca, de útero negro!”; “Aqui nenhum menino se cria!”; “…ou é o ventre da mãe que não presta!”
A criança poderia ter se afogado em um tanque raso. Levantam hipóteses, tipo: “… ou foi suicídio?”; “…criança não se mata!”
Após esta introdução, outras personagens entram em cena/ Na parte de fora da casa:
Os quatro negros estão espantados com a presença do cego que caminha indeciso, com um bordão e seu rosto possui uma doçura quase feminina. Eles falam que Ismael não gosta de branco, que ele construiu os muros para ninguém entrar. São lá do cemitério e, estão ali para levar o filho do “homem” – Ismael, que morreu. Ismael é médico. “Preto, mas de muita competência.” O cego pergunta sobre a mulher. Porém, essa ninguém vê. Revela que é parente do doutro e que vai entrar na casa. Cego e Ismael se encontram. São irmãos emprestados. E Elias, o cego, diz que a mãe de Ismael o enviou ali para mandar a sua maldição contra ele. Elias insiste para ficar na casa de Ismael e para beijar o sobrinho morto. Ismael humilha Elias, mas ele aceita para poder permanecer ali. Ele deixa que o irmão fique, só até o outro dia. Diz que tem uma mulher e avisa Elias para não falar com ela, de maneira nehuma.
O foco agora é em Ismael e Virgínia, no quarto. Iniciam uma discussão. Ela se queixa de ter sua vida reduzida à casa, aos limites do muro, à Ismael. Ele não quer que Virgínia tenha contato com outros homens, especialmente se forem brancos. Para ela, os filhos negros são só do marido. Ela quer um quadro de Jesus, ele não concede e não quer deixar que ela saia do quarto. Virgínia não chora a morte do filho. Ismael eos 04 negros saem levando o caixão. Ela fica trancada no quarto.
Virgínia – “Se fosse um Cristo cego…”
Ismael – “Não deixo, nem quero… Este Cristo, não; claro, de traços finos.”
2º QUADRO:
As senhoras negras estão no quarto de Virgínia. Estão falando sobre o irmão branco de Ismael e que a mulher nem beijou o filho. A criada sobe, Virgínia quer que ela abra a porta, mas a criada não pode. Virgínia então começa a persuadir a criada. Faz uma chantagem sobre quando, uma vez, ajudara a criada emprestando dinheiro para mandar à sua filha – que estava se prostituindo. Esta só abre após a mulher branca lhe dar dinheiro. A criada fala sobre o irmão de Ismael, que está na casa. Que ele é branco e cego. Virgínia quer conhecer o rapaz. Ela está deslumbrada de ver outro rosto que não o de Ismael e branco. Através dessa conversa entre Elias e Virgínia, sabe-se um pouco mais sobre a história pessoal de Ismael. Que ele destruiu todo o desejo que sentia por mulatas e negras, que não bebia cachaça por ser uma bebida de negro, que ele maltartava o irmão, a mãe negra, que Ismael trocou os remédios dos olhos e Elias ficou cego por isso. Virgínia também conta o motivo de ter-se casado com Ismael. Ela fora criada pela tia que era viúva e que tinha cinco filhas solteironas, menos a caçula que ía casar-se. Elas tinham inveja de Virgínia, por ela ser linda. Ismael era o médico, depois amigo da família. “Preto, mas muito distinto.” Ele se aficcionou em Virgínia (15 anos). Mas ela amava o noivo da prima – em segredo. Um dia, o noivo e ela se beijaram e foram surpreendidos pela tia e pela noiva. Que não aguentou o choque e se enforcou. O noivo fugiu. E a tia, para castigar Virgínia, concedeu e mandou que Ismael fosse estuprá-la, no quarto. No outro dia, ele comprou a casa, elas partiram e 30 dias depois voltaram para o casamento. Elias quer fugir com Virgínia. Ela diz que não pode, Os dois abraçam-se e beijam-se, no quarto. Ela quer ter um filho branco. Enquanto estão no quarto, a tia e as primas estão chegando no jardim.
SEGUNDO ATO
No quarto: Elias e Virgínia
Na sala: a tia e as filhas solteironas
As senhoras pretas estão na sala de visistas.
A tia e as primas de Virgínia pensam que não têm ninguém na casa. Mas ouvem vozes lá em cima. Elias não quer ir embora e Virgínia está fria com ele. Ele diz que poderia ser o assassino de Virgínia. A tia flagra Elias descendo as escadas. Atormenta Virgínia por ela ter um amante. Diz que vai contar à Ismael. A filha mais velha da tia está louco por ser virgem. Quando Ismael chega, Virgínia assume uma atitude quase amorosa com o marido. Neste diálogo o autor esclarece que foi Virgínia quem matou os filhos, por serem negros. “Eu queria livrar a minha casa de meninos pretos.” A tia sobe no quarto e revela que a mulher branca é amante de Elias. Depois vai embora com as filhas desejando que o marido mate Virgínia.
As senhoras negras, estão em semicírculo, no tanque. Ismael ameaça matar o filho de Virgínia afogado no tanque. Ele então mata Elias. A tia e as primas, ouvindo o tiro, acreditam que Ismael matou Vitgínia.
TERCEIRO ATO / DIVIDIDO EM 1º E 2º QUADROS
1º QUADRO:
Casa de Ismael – 16 anos depois (Nunca mais fez sol)
Nasceu uma menina, branca – Ana Maria, cega.
Senhoras negras, em cena.
Ismael e Virgínia estão conversando sobre um assassinato que ocorreu na noite passada, ali perto. Ele diz que não ajudou porque a mulher era uma estranha. Ele só ajudaria Ana Maria. Ele “ama” a filha mais do que tudo. Ele cegou a menina quando era bebê, não deixou Virgínia chegar perto dela nunca, implantou o preconceito dele em Ana Maria – e fê-la acreditar que ele era o único branco do mundo. Mas a Virgínia não gostava da filha, de qualquer modo, pois ela queria ter um filho homem para quando ele crecesse ela o pudesse amar como homem. Agora, Virgínia quer contar tudo para a filha. Eles discutem. Nisso reaparecem os quatro negros trazendo um cadáver. Chamam por ismael para pedir-lhe um pouso aquela noite. Ele aceita e caeita também que Virgínia conte para Ana Maria tudo o que aconteceu e, inclusive, que ele é negro. Ele quer contruir um lugar seguro para ficar com Ana Maria e diz que vai expulsar Virgínia de casa.
2º QUADRO:
Ana Maria e Virgínia discutindo. A filha não acredita e mesmo se fosse verdade ela odeia a mãe. “Pai é o que a gente quer, o que a gente escolhe, como um noivo…”. diz Ana Maria. A tia aparece na sala. A morta era a sua filha. Uma das primas de Virgínia – a última que sobrou – a própria mãe mandou que ela fosse caminhar perto da fonte, à noite, para ser estuprada. Virgínia quer convencer a filha a fugir, ir ser “mulher da vida”. E Ana Maria revela que já é mulher, que ama Ismael como homem. Ela não quer ir embora. As senhoras pretas estão no jardim. Ismael construiu um mausoléu para ele e Ana Maria. Virgínia quer agora convencê-lo que o ama. Quer ficar com ele.
Senhoras: – “Vosso amor e vosso ódio não têm fim neste mundo!”
- “Branca Virgínia…”
- “Negro Ismael…”
Última imagem: Ana Maria, de joelhos e braços abertos em cruz; parece petrificada nesta posição – dentro de um mausoléu de vidro.
A tragédia “Anjo Negro” é permeada pelo tema do(s) preconceito(s). Expresso, neste caso, pelo preconceito racial. Atarvés do microcosmos, que é a casa de Ismael, o Grande Negro – estão explicítas diversas relações sociais, conforme segue:
Assim como nas targédias gregas, o coro participa descrevendo os momentos da trama e, neste caso, se desloca pelo espaço cênico. Iniciam no velório, depois vão para o quarto de Virgínia, para o tanque, para o jardim. São dez senhoras pretas numa conversa preconceituosa acerca da cor negra. Comentários, muitas vezes, maldosos em meio às rezas católicas.
Talvez o fato de Ismael, que é negro ter um trauma profundo da cor da sua pele se explique na medida em que através dele, é refletido todo o peso de uma sociedade racista, opressora – que valoriza o status, a posição na hierarquia social. Tudo de um modo bastante agressivo. Ele cegou o irmão emprestado porque era branco, por exemplo. Depois, enclausurou-se com a esposa em uma casa, cercada por muros, na qual nenhum branco era bem vindo.
O casamento era de aparências. Virgínia, a esposa, fora estuprada pelo marido desde o primeiro contato sexual deles. Ele praticamente se apossou da mulher com o consentimento da tia dela. E no texto não há nehuma referência a ela ter tentado fugir alguma vez – ela sentia muita vergonha do que acontecera. Salvo quando Elias a convida para ir embora, após eles terem tido relaçõesa sexuais. Mas ela não vai, diz que não adiante. Virgínia assassina os próprios filhos – por serem negros. Ela diz que os filhos são só de Ismael. Quer livrar a sua casa de negros. Mas Ismael sabe disso e aceita pois assim, cria-se um vínculo cada vez maior com Virgínia. Ela transa com Elias, irmão de Ismael e fica grávida dele. Queria um filho branco. Por quê Ismael recusa o pedido de Virgínia: um quadro de Cristo mesmo que seja cego? A religião católica que, geralmente, contribui para a manutenção e continuidade desse sistema de dominação, de racismo, de classes oprimidas e opressoras. A própria questão do casamento, que é um matrimônio religioso – neste caso – vindo de uma violação. Assim como, os relacionamentos sexuais entra as personagens podem estar retratando a perversidade do preconceito racial. A violência contra o ser humano num sentido geral.