“… um pouco de agitprop, de teatro popular, de teatro político…”l
O agitprop nacional vai surgir no interior do ambiente universitário, como ativismo cultural de rua. Fruto de um raciocínio contraditório, a produção teatral misturou um projeto ambicioso de arte popular com uma prática diversificada entre o agitprop e o teatro nos moldes profissionais.
“um teatro de todos, onde os esforços de todos contribuam para a alegria de todos”
Algumas considerações históricas:
- Celebração do trabalhador como tema e intérprete; como principal função, a aglutinação em torno de um espaço próprio de lazer e convivência.
- Reconhecimento do teatro como veículo de idéias, fator de arregimentação e instrumento de lazer adequado a uma determinada classe social.
- A presença de uma “massa” de operários sem acesso à produção artística estimulou a reflexão sobre a arte, em especial o teatro, enquanto meio pelo qual se poderia mobilizar os trabalhadores e fazer avançar a luta revolucionária. As condições para a organização desses impulsos transformadores e essas experiências de caráter popular não nasceriam apenas dos próprios processos internos: são os fatos políticos que vão determinar a conjuntura adequada para que o teatro de natureza política se institua, e o Partido Comunista e o Estado terão aí um papel preponderante. A Rússia seria o berço desse fenômeno. Os primeiros anos da Rev. Russa são os momentos de intensa mobilização. Na esteira do avanço da Guerra Civil, as necessidades revolucionárias vão determinando os procedimentos: intelectuais, artistas e trabalhadores organizados assumem a tarefa de disseminar a Revolução, impedir o avanço das forças contra-revolucionárias e informar a população das novas idéias e dos novos acontecimentos. Paralelamente à instauração dos órgãos governamentais, vão surgindo os organismos culturais dependentes, que farão a mediação entre o Estado e a população nesse empenho de mobilização. Começam a se configurar as primeiras estratégicas de agitação e propaganda (agitprop) artísticas. A palavra de ordem é instruir o povo e garantir a todo o custo, a vitória da Revolução; os temas, a própria Revolução, a luta revolucionária e os primeiros passos para a construção do socialismo.
- “comunismo de guerra”: predomina a agitação de meeting (mobilização maciça de propulsão quase espontânea, nascida nas bases operárias e artísticas e difundida através de diferentes organismos, oficiais, partidários e de trabalhadores). A grande movimentação de grupos de teatro perambulando pelas vilas, casernas e fronts de batalha revive a tradição do teatro ambulante e, nos grandes centros urbanos, as ruas tornam-se o cenário privilegiado das manifestações artísticas. Na base de toda a ebulição cultural encontram-se os grupos auto-ativos. São coletivos de produção artística que congregam diferentes “círculos”, abrangendo diversos aspectos da educação política e da vida cultural de seus membros. Desempenham também um papel de reprodutores, formando e estimulando outros coletivos, obedecendo à urgência de se promover nos meios proletários o auto-ativismo como uma ação das próprias massas para criar um fragmento da cultura da sociedade que está nascendop.
- Reivindicar seu papel na construção das novas relações sociais e, no seio desta, erigir seu espaço cultural próprio, fora da cultura hegemônica das outras classes. No caso, em oposição à cultura burguesa.
Alguns dos principais grupos que obtiveram destaque, neste período foram:
- O Terevsat: nasce inspirado na tradição dos cabarés literários, cujas expressões mais fortes são a sátira de costumes, a crítica sociopolítica e a paródia. Os teatros satíricos floresceram no período pré-revolucionário e após 1917, fornecem grande parte dos diretores e atores que iro atuar nos Terevisats que se multiplicaram pela Rússia nos anos 1920.
- O Teatro de Agitação de Estado de Leningrado: fundado em agosto de 1918 por iniciativa dos ferroviários como Estúdio Dramático, agregado à Casa de Cultura e Educação nas Ferrovias do Noroeste. O objetivo do grupo é o de formar um novo público e, saídas deste, novos grupos de teatro, dando corpo a uma das diretrizes do auto-ativismo (a multiplicação de agentes).
A partir da instauração da NEP (Nova Política Econômica), em 1921, ocorre uma mudança de natureza do trabalho dos coletivos: da agitação para a propaganda, ou seja, da arregimentação e da mobilização em torno dos objetivos imediatos da Revolução Russa, para a construção do socialismo soviético. O trabalho de agitação passa das bases espontâneas para os núcleos artísticos, organizados.
AGITPROPm
Acrónimo formado pela abreviatura de agitação e propaganda, geralmente aplicado à campanha de propaganda político-cultural realizada na Rússia, depois da Revolução de 1917. Concretamente, o Partido Comunista Soviético criou em 1920 um Departamento de Agitação e Propaganda, que era parte do Secretariado do Comité Central, que tinha por missão usar a arte como uma arma revolucionária num País degradado pela guerra e marcado pela iliteracia.
O termo também é aplicável ao tipo de teatro didáctico a que essa campanha recorreu, que, por exemplo, terá influenciado alguns autores alemães como o dramaturgo Brecht e o produtor Piscator (na Alemanha, esta influência durou apenas até à ditadura nazi, (que a silenciou), em resultado da expansão cultural do comunismo soviético nos países de Leste. Pelas suas pretensões populistas, o drama agitprop era visto como uma vacina contra o drama burguês.
A partir da década de 60, todo o teatro que tende a sobrepor a ideologia à sua representação estética acaba por ser conotado com a doutrina agitprop.
LITERATURA DE EXÍLIO; TEATRO DIDÁCTICO; TEATRO ÉPICO
Bib.: Albert E. Gurgabus: The Art of Revolution: Kurt Eisner’s Agitprop (1986); Eckhard Breitinger: “Agitprop for a Better World: Development Theatre: A Political Grassroots Theatre Movement”, in Raoul Granqvist (ed.): Signs & Signals: Popular Culture in Africa (1990); Gudrun Klatt: Arbeitrklasse und Theater: Agitprop Tradition, Theater im Exil, Sozialistisches Theater (1975); Heliane Kohler: “Quelques traits specifiques de l’agit-prop: discours politique et theatral”, in Mélanges offerts a Jean Peytard, 2 vols. (1993); Jon Clark: “Agitprop and Unity Theatre: Socialist Theatre in the Thirties”, in Jon Clark et al.: Culture and Crisis in Britain in the Thirties (1979).
Carlos Ceia
l GARCIA, Silvana. Teatro da militância: a intenção do popular no engajamento político. Ed. Perspectiva: São Paulo, 2004.
p CHEVREL-ARMIARD, Claudine.
m E-Dicionario de Termos Literários. Disponível em: http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/A/agitprop.htm. Acesso: 05/07/2006 11:57min.
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