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achado na internet…. Patético discurso político

Postado em Wladimir Herzog em 12 de agosto de 2009 por sagradocacete

Artigo de Aramis Millarch originalmente publicado em 24 de agosto de 1980

“Ver e pensar a trágica saga de Glauco/Vlado é instaurar, em nós mesmos, uma reflexão sobre nossa responsabilidade cotidiana no processo sócio político nacional”. (Fernando Peixoto, março/80).

Cartaz da peça Ponto de Partida1

Foto da Estreia Ponto de Partida2

Foto da Estreia Ponto de Partida3

 

Há quatro anos, Fernando Peixoto, ator, diretor e ensaista de teatro, se confessava surpreso – mas feliz – por ter conseguido a liberação de “Ponto de Partida”, de Gianfranciesco Guarnieri. Em ritmo de fábula, Guarnieri colocava o dedo na (recente) ferida provocada pelo “suicídio” do jornalista Vladimir Herzog – (1975), ocorrida nas masmorras do DOI-CODI, em São Paulo, na fase mais violenta da repressão. Numa montagem exemplar (estamos nos referindo à original e não nas outras encenações, inclusive na frustrada tentativa feita em Curitiba), “Ponto de Partida”, em plena vigência do AI-5, colocava a questão de forma poética e crítica, em interpretações vigorosas de Guarnieri, Othon Bastos Martha Overback, além de revelar o compositor-cantor Sérgio Ricardo um esplêndido ator (e fazendo ainda a música-tema, lançada em compacto da Marcus Pereira, hoje raridade).

Agora, com a abertura, que permitiu uma espécie de expiação teatral, com montagem de vários textos proibidos por anos, a temporada de “Patética” (pequeno auditório do Guaíra, hoje, 21h 30 min) é um evento importante. Afinal, trata-se de um texto escrito por um cunhado de Herzog (João Ribeiro Chaves Neto), que, antes mesmo de ter sido anunciada sua premiaçào no VIII Concurso de Dramaturgia da SNT, em 7/10/1977, foi confiscado pelos órgãos de segurança.

O concurso do SNT – que anteriormente já havia tido problemas com a Censura (como a premiação de “Papa Higherte” e “Rasga Coração”, ambas de Oduvaldo Viana Filho, premiadas e proibidas até 1979), tornou-se assim um pivô de delicada questão: enquanto um organismo do Ministério da Educação e Cultura premiava um texto, os órgãos de segurança do mesmo governo sequestravam o texto e a Censura proibia a peça. Passados menos de tres anos, “Patética” chega aos palcos: depois das leituras dramáticas (inclusive a realizada no mesmo Guairinha, há pouco mais de um ano), temos agora esta encenação profissional, com direção de um nome respeitado – Celso Nunes – e um elenco de interpretes conhecidos. Seria de se esperar um espetáculo inesquecível. Se tem apenas uma peça politicamente marcante.

“Gostei mais de leitura”. Esta afirmação ouvimos pelo menos de 5 pessoas que fora, quinta-feira, 21, assistir a estréia de “Patética”. Emocionante, sem dúvida. Especialmente se consideramos que os fatos que a peça traz são verídicos – e o perigo não acabou. Emocionante e atual, portanto. Só isso já torna válida esta encenação. Mas, infelizmente, faltou um toque de maior profundidade, que um diretor da competência de Fernando Peixoto soube dar em “Ponto de Partida”.

Celso Nunes é um diretor veterano e com alguns sucessos. Mas, infelizmente, não conseguiu dar a comunicação, a garra que o denso texto de João Ribeiro Chaves Neto estava a exigir. E o que é mais grave: a modificação do texto original, com prolongamento das cenas iniciais e colocação de discursos políticos ao final, dando uma atualidade maior (como a questão do terrorismo contra as bancas de revistas que vendem exemplares da imprensa alternativa) pouco acrescentou. Afinal, o texto de Chaves Neto já vale pelo que contém de dramático, não necessitando de “atualização”. A tortura de Wladimir Herzog/Glauco Horowitz é e recente demais, atual demais, para necessitar de novos elementos. Outro aspecto grave na direção de Celso Nunes foi a falta de maior orientação aos diretores, levando a atores menos experientes como Eurico Martins (Pedro Navarro/Valdeir) a uma interpretação ceifada e até irritante em alguns momentos. Em compensação, a substituição do elenco não apresentou problemas: Abrão Farc no lugar de Antonio Petrin, interpretando Valter Rosado e Hans Horowitz é, de longe, a melhor figura em cena. Sua interpretação é densa, profunda emocionante. Beth Mendes, substituindo a Regina Braga, consegue dar a Iara Rosa/Clara Horowitz o toque necessário para chegar ao espectador. Ewerton de Castro, no dificílimo papel de Glauco Horowitz, em suas contradições, poderia render mais se tivesse maior apoio na direção. É ainda o palhaço Bolota, que abre e encerra o espetaculo. Um destaque especial para Lilian Lemmertz, uma das melhores atrizes brasileiras, massacrada em dezenas de filmes por culpa de cineastas mediocres e fascitóides, mas, que, quando pode, dá interpretações magníficas: em “Caixa de Sombras”, dirigida por Emílio Di Biase, estava irrepreensível. Agora, como Jaoana da Criméia, e Ana Horowitz, forma com Abrão Farc, a grande presença em cena.

As restrições que se possa fazer a “Patética” não desmerecem, em absoluto, o espetáculo que ainda hoje deve ser visto e prestigiado. Quando várias peças se voltam analisar e discutir os negros anos da repressão mais violenta e cruel – como “Sinal de Vida”, de Lauro César Muniz e “A Fábrica de Chocolate”, de Ruy Guerra (ambas inéditas ainda em Curitiba), “Patética” deve ser pensada e discutida. Ao longo de suas dez cenas, Chaves Neto coloca a trajetória do casal Horowitz, judeus iugoslavos que chegam ao Brasil em 1949, estabelecem-se em São Paulo e vêem seu filho, Glauco (Wlado) ingressar no jornalismo e ter militância política. Personalidade complexa, mas consciente dos problemas sociais e políticos, Wlado se destaca na imprensa e acaba preso, torturado e morto na prisão. Seu “suicidio” provocou imensa repercussão e, para muitos analistas, foi o ponto de partida do processo de abertura política.

Em quase duas horas, sem intervalo, há dez cenas. De uma forma felliniana, o espetáculo abre e fecha num circo. Uma peça dentro de uma representação – o circo que está sendo fechado, pela repressão. A música circense, emotiva, soma-se à “Dança Eslava” de Dvorak, para dar um clima sonoro emocionante. Muitos slides e música de época para situar os vários planos da narrativa. Esta marcação poderia ser mais ágil, dinâmica – e, nisto, em nosso entender, constitui outra das falhas da direção de Celso Nunes. Em dezembro de 1977, no prefácio da edição de “Patética”, Fernando Peixoto chamava a atenção para um dos aspectos importantes da peça: “Patética” não é apenas, como pode parecer a princípio, a reprodução de uma estrutura já conhecida: a troupe de circo que conta uma história, cada um de seus elementos assumindo um ou mais personagens. É isto, mas é muito mais. A complexidade da estrutura ganha uma nova dimensão quando, por exemplo, o personagem principal, jornalista de televisão, está gravando um programa no qual entrevista justamente os artistas do circo que estão representando sua história. E João Ribeiro Chaves Neto, com segurança, leva o jogo ainda mais longe, quando faz com que os personagens, sendo entrevistados na televisão, também interpretem cenas da peça que estão no momento representando: a vida do próprio entrevistador. Neste instante são quatro níveis de realidade que se misturam numa leitura dialética que enriquece a narrativa dramática. Em nada disso existe o jogo pelo fogo, o efeito pelo efeito. Estamos diante de um dramaturgo realista que não hesita em pesquisar uma linguagem que rompe com certos esquemas habituais, ao mesmo tempo que se mantém fiel a seu inequívoco propósito de expor com clareza, uma tragédia de nossos dias sem qualquer tipo de apelação a inúteis ou falso rebuscamentos formais. Este não-esquematismo da estrutura, como a exatidão e rigorosa prudência de sua análise, fez de “Patética” um texto despojado e fascinante enquanto obra literária, e estimulante enquanto roteiro cênico. O espetáculo, nela, circo ou teatro ou TV, é parte orgânica de sua essência. Um instrumento para o debate de idéias. Não é, nem pretende ser, uma obra-prima definitiva e seu autor está ainda num processo de nítida evolução, mas não se limita aos circunstâncias valores de um teatro para ação e reflexão imediatas”.

“Patética” vale como documento. Como denúncia. Como discurso político. Como sinal de alerta e ponto de partida em termos de uma arte engajada. Um espetáculo importante a ser visto. E que, em nosso entender, teria sido muito melhor se, ao invés de Celso Nunes, fosse Fernando Peixoto a dirigí-lo. Mas, afinal, o conteúdo compensa a forma. Ainda bem.

Foto Fernando Pexoto, Guarnieri e outros Ponto de Partida

 Post. Aline

Fot. André

Para nunca esquecermos

Postado em Wladimir Herzog em 18 de junho de 2009 por sagradocacete
Foto póstuma de Vladimir Herzog em sua cela
Foto póstuma de Vladimir Herzog em sua cela

 Por Geison F

La strada per dove passo
Non è oggi più lá stessa
Hanno lasciato crescere il camposanto
È morta la principessa

O caminho por onde passo
Hoje não é bem o mesmo
Eles deixaram o cemitério crescer
Ela morreu a princesa

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